Você quer saber como as pesquisas podem auxiliar na tecnologia e profissões jurídicas?

Te interesse no meio?

Quer saber como se basear nessas pesquisas para tomar decisões importantes?

No episódio #42 do Laywer to Lawyer, o podcast da Freelaw, Gabriel Magalhães entrevista Marina Feferbaum.

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Marina Feferbaum

É doutora, mestre e graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ela também é professora e coordenadora da área de Metodologia de ensino e também do Centro de Pesquisa em ensino à inovação da FGV direito São Paulo. 

Ela também tem uma atuação de pesquisas, tanto em direitos humanos quanto no sistema jurídico africano, no ensino jurídico brasileiro, e também sobre métodos de ensino e tecnologia.

Na FGV Direito São Paulo ela também coordenou o Observatório do Ensino de Direito e cursos de pós graduação lato sensu. 

Ela também foi professora da pós graduação nas disciplinas de Metodologia científica e internacionalização das áreas jurídicas.

Ela já publicou e organizou diversas obras sobre direitos humanos, ensino jurídico, e metodologias participativas de ensino. 

Além de ministrar cursos de formação docente pelo Brasil.

Gabriel Magalhães

É um dos fundadores da Freelaw e o Host do Lawyer to Lawyer. É bacharel em Direito pela Faculdade Milton Campos.  

Possui formação em Coaching Executivo Organizacional, pelo Instituto Opus e Leading Group.    

Formação em Mediação de Conflitos, pelo IMAB, e em Mediação Organizacional, pela Trigon e pelo Instituto Ecossocial. Certificações em Inbound Marketing, Inside Sales e Product Management pelo Hubspot, RD University, Universidade Rock Content, Gama Academy e Tera, respectivamente.      

Escute o episódio em seu player de áudio favorito e leia o resumo do episódio abaixo que conta com todas as referências citadas durante a gravação.  

Gabriel: No episódio de hoje, nós faremos uma análise empírica dos impactos da tecnologia, tanto na advocacia quanto no ensino do direito. 

E aí a gente vai trazer uma profissional que eu já vou apresentar para vocês, que coordenou uma pesquisa com quatrocentos e três escritórios de advocacia do Brasil.

Para saber com inseridos esses escritórios estavam na tecnologia. 

O que eles descobriram nessa pesquisa?

Como que esse levantamento foi feito? 

Será que os escritórios do Brasil estão preparados realmente para investir em tecnologia e também para inovar? 

Qual é o impacto dessas tecnologias no ensino jurídico? 

Será que ainda vale a pena fazer direito com tantos advogados que estão se formando? Os robôs eles vão acabar com os advogados? 

Quais são as novas profissões que vão surgir no Direito?

Eu tive o prazer de debater todos esses temas com a Marina Feferbaum. 

O mais interessante sobre a Marina, é que no episódio de hoje ela consegue realmente unir a academia ao que a gente precisa nos dias de hoje. 

Que é a partir da academia, a gente criar dados que podem ser utilizados tanto para melhorar o ensino, quanto para conscientizar o mercado dos problemas que a gente tem hoje, do que a gente pode fazer diante disso. 

Eu convido você que fique até o final dessa entrevista. Tenho certeza que vai valer o tempo investido até logo!

Oi Marina, seja bem- vinda ao lawyer to lawyer, é um prazer te receber aqui hoje.

Como tomar suas decisões baseadas pesquisas

Gabriel: Conta um pouquinho para os colegas ouvintes um pouco mais sobre essas pesquisas que você conduziu. E o que você aprendeu com essas pesquisas.

Marina: Legal. Bom, primeiro boa tarde ou bom dia a todos e todas que estão ouvindo.

A gente tem aqui na escola, na Fundação Getúlio Vargas, feito muitos trabalhos para entender um pouco como é que tem funcionado o mercado jurídico de fato, porque, o que a gente sente é uma angústia muito grande para entender o que de fato está acontecendo nesse mercado. Quais mudanças que a tecnologia tem imposto. 

Que tipo de ferramenta os escritórios, de fato, estão usando, adquirindo. 

Então, parece, a sensação que a gente tem de ouvir, conversar com muitas escritórios, é que, isso é uma definição que uma aluna minha falou uma vez. 

Parece que você vai tomar um copo de água e vem um hidrante na sua cara assim. Porque é tanta informação atenta, é tanto serviço, tanto a oportunidade que os escritórios ficam muito perdidos assim, em onde navegar e como navegar, diante de todas essas informações.

Gabriel: Marina, desculpa te interromper. Mas quando eu comecei a estudar sobre direito e tecnologia, eu fui um evento no lawtech conference da StartSe, e aí tinha tanta tecnologia. 

E eu saí do evento e falei: “nossa eu quero aplicar, eu quero usar alguma coisa”, e realmente, eu não consegui encontrar uma solução que adaptava na minha realidade na época.

Marina: Exatamente, isso é a angústia, acho que de muitos escritórios, enfim. E das pessoas que têm que tomar decisão, ou porque o cliente também pressiona, ou por que, enfim, acha que está perdendo alguma coisa. 

Mas enfim, é um mercado realmente que está em transformação. E aí nós, enquanto faculdade de Direito, a gente tem muito interesse em entender esse mercado para a gente conseguir formar nossos alunos. 

Entender que competências e habilidades esse mercado buscando, para que a gente possa, de fato, desenvolver isso também enquanto faculdade de direito. 

E um pouco a gente vai falar mais adiante sobre isso. Mas a pesquisa em si, ela foi para entender qual que é o grau de inserção tecnológica dos escritórios. 

Será que os escritórios hoje estão preparados para receber a tecnologia? 

Então é um passo até um pouco antes de entender como esses escritórios têm feito gestão de conhecimento? 

Porque a gestão de conhecimento, que é por exemplo, como você salva o seu documento word, o seu minutário. 

Por exemplo, dois mil e dezanove ponto zero dois ponto zero três. Isso já é um tipo de gestão de conhecimento. 

Então a forma como você organiza esse minutário, essa documentação do escritório, é o primeiro passo para receber a tecnologia. E aí sim a gente pode falar em processos de automação, e posteriormente inteligência artificial e assim por diante. 

Mas a gente queria entender então como que de fato, os escritórios estão se portando com relação a isso, a gestão de conhecimento, e a adoção de tecnologia.

E a gente saiu entrevistando, é uma pesquisa empírica quantitativa, e a gente entrevistou quatrocentos e três escritórios dentre pequenos, médios e grandes para entender, então. 

Vocês estão preparados? Vocês estão se organizando? Quais tecnologias? 

E assim por diante, e disso a gente encontrou vários dados muito interessantes para entender o movimento do mercado político brasileiro.

Gabriel: Muito legal! E assim, uma coisa que me chama atenção , Marina. É que você numa das faculdades de direito mais respeitadas do país.

E de um lado a gente tem esse movimento de tecnologia e inovação no direito, e de outro a gente tem muita crítica à atuação das instituições de ensino. 

Porque muitas pessoas dizem que as grades curriculares estão ultrapassadas. Que as faculdades de Direito não estão preparando os estudantes aí para esse novo mercado. 

Mas ao mesmo tempo, a gente vê iniciativas muito legais partindo da academia, como a de vocês.

Marina: Isso é uma discussão muito interessante de como as faculdades então devem preparar desse mercado. 

Tanta movimentação, em que tarefas repetitivas vão ser altamente substituídas por máquinas num primeiro momento e a colocação de funções.

A gente fala que o direito vai acabar, não, não é isso. As funções que os advogados fazem é que vão modificar. 

E aí nesse contexto, a gente tem hoje mais de mil e quatrocentos cursos de direito. 

Então, o Direito é uma profissão que os dados mostram, nos últimos anos ainda é a profissão mais buscada. 

E a gente se pergunta por que será que as pessoas estão indo, continuando aí ou voltando para as profissões mais tradicionais? 

Talvez isso tenha a ver também com tecnologia. E dois por cento de todo o alunado brasileiro universitário, são estudantes de direito.

Então a procura por essa produção é muito grande e, por outro lado, as faculdades, elas tem é fugido muito ao papel de treinar, de qualificar esses estudantes para realmente terem uma neste mercado que está tão complexa. 

A gente vendo muitas aulas expositivas, muito conteudista. 

Enfim, uma preocupação muito grande com passar no exame da ordem, ou para concurso público. Que muitas vezes acaba fazendo com que os cursos de Direito virem muito conteudistas. 

A gente sempre brinca aqui na escola que o rabo não tem que abanar o cachorro, mas o cachorro tem que abanar o rabo. 

As faculdades querem atender a OAB, querem atender concursos públicos. Mas também a gente não pode esquecer de que a gente está formando pessoas para melhorar as nossas instituições, para melhorar o mercado e assim por diante. 

E a gente sente, de fato, pelo que a gente está vendo hoje, nesse ensino tradicional, que não é tradicional, é ruim. Mas essa qualificação não está sendo oferecida de uma maneira adequada para todo esse cenário, tanto político quanto de mercado que a nossa sociedade precisa. 

Então a gente tem olhado muito e feito muitas experimentações, para entender né. Perguntas, dúvidas que surgem. 

Quais habilidades que eu preciso ensinar? Eu preciso ensinar empreendedorismo?

Eu preciso ensinar liderança e trabalho em equipe, comunicação para esses alunos?

Como que eu faço isso dentro do currículo e do currículo explícito e não implícito da instituição? 

Como que eu posso integrar isso nas disciplinas ou num currículo mais orgânico? 

Até que ponto essas habilidades são ensinadas nas nossas faculdades de Direito? 

Como que a gente pode também qualificar nossos professores para trabalhar essas habilidades? 

Então, a gente passou por um processo, isso muito em resposta à pesquisa, que depois eu posso comentar mais adiante os resultados da pesquisa. 

Para entender de fato, então, como que a gente pode trabalhar isso melhor. 

Então, perguntas como agora o aluno precisa saber programar? A nossa conclusão com relação a isso, não. 

Ele não precisa saber programar. A gente não quer formar programadores, mais ou menos e advogados mais ou menos, não.

A pessoa precisa saber direito e muito. Mas a questão é que como a gente está falando de uma chave de multidisciplinaridade cada vez mais forte, tendo uma junção das profissões. 

A gente precisa entender muito da lógica também, de uma lógica de programação. 

Como que você desenha uma árvore de decisão e pode traduzir essa árvore de decisão também numa linguagem, que o computador possa ler, enfim, trabalhar em cima disso? 

Então, justamente essa aposta nessa chave de interdisciplinaridade que a gente está olhando bastante.

Gabriel: Uma questão que eu achei interessante, Marina, do trabalho de vocês, primeiro é esse viés de pesquisa empírica que eu tô doido para saber os resultados com esses 403 escritórios que vocês entrevistaram.

Com objetivo final na de entender como que a gente deve se portar diante desse mercado. E, além disso, uma questão que achei bem legal de vocês é que vocês estão promovendo vários eventos ligados também a tecnologia e inovação. 

No ano passado mesmo, a gente teve a oportunidade de comparecer em um desses eventos, que foi o lawtech venture day, foi um dos eventos mais bem organizados que eu já fui até hoje, que estava conectado realmente academia com as empresas que estão inovando e também com o mercado.

E poucas instituições de ensino estão fazendo isso.

Então, assim eu estou gostando bastante do que estou vendo e eu queria até te agradecer por isso, porque esse trabalho que você faz, ele tem uma importância muito grande para o ecossistema brasileiro. 

Eu tenho certeza que vários jovens vão conseguir se guiar profissionalmente de uma forma muito mais adequada e assertiva a partir desses dados.

Como começar a produzir dados

Marina: Eu que agradeço por todas as suas colocações e elogios. Muito, muito obrigada e, enfim, você ter feito parte disso também deixa super orgulhosa. 

Mas assim para trabalhar um pouco essa questão da importância, acho que é fundamental os centros de pesquisa, enfim tem grupos de apoio, núcleos de pesquisa, olharem para entender inclusive a própria OAB, para entender a fundo o que está acontecendo nesse mercado. Como começar a produzir dados. 

Isso é muito comum na american bar association, de se ter dado sobre absolutamente tudo. 

Então, justamente para ter uma clareza maior de qual é essa realidade que se está vivendo. E aí foi um pouco nessa chave que a gente começou a trabalhar a pesquisa. 

Então a gente fez basicamente três produtos. Um produto foi essa pesquisa quali, que eu vou contar um pouco agora para conectar com a sua pergunta. 

E uma quanti entrevistando startups e outra que era para contar os resultados das nossas iniciativas de ensino e as principais conclusões que a gente chegou no nosso experimentalismo da nossa grade curricular. 

Então, com relação à pesquisa, a gente olhou então nessa chave de entender. Será que os escritórios estão fazendo gestão de conhecimento, não é? 

A gente viu que escritórios com até cinco advogados, oitenta por cento deles não faz, não tem nenhuma iniciativa de gestão de conhecimento, enquanto que nos grandes escritórios têm mais de cinquenta advogados. 

Cinquenta e sete por cento já fazem uma gestão de conhecimento consolidada. Isso é muito importante, principalmente por esse motivo que eu falei que é o primeiro passo de receber tecnologia. 

Mas também existe uma cultura no direito muito forte, que também apareceu nas nossas entrevistas, é de que o advogado também, por ser uma profissão muito tradicional, falar o conhecimento já está todo em mim. 

Então, ah eu tenho muito orgulho de fazer uma peça branco e assim por diante. Então, isso é ruim no sentido, se a pessoa morre ou se acontece alguma coisa, o conhecimento está nela e não mais naquele escritório, naquela instituição, enfim, onde ele atua. 

Então, por isso que a gestão de conhecimento é um passo tão importante que alguns, a gente viu aí na pesquisa, que a maioria dos pequenos escritórios eles não têm ainda feito esse tipo de trabalho. 

Eu acho que olhar para isso como a primeiro passo é interessante.

Gabriel: Você falando sobre isso, eu tô lembrando de uma frase do livro do professor Richard Susskind, que é do tomorrow’s lawyers, que ele diz exatamente isso que você trouxe.

Ele fala que grande parte dos advogados, eles acreditam que os serviços deles são muito mais personalizados, muito mais customizáveis do que de fato são. 

E às vezes, se a gente está fazendo uma petição do zero e não armazenou o conhecimento de uma forma adequada das petições antigas que a gente já fez, está gastando mais tempo para um serviço que ele poderia estar gastando menos tempo.

E, consequentemente, quem vai estar pagando por isso é o cliente final, porque o serviço final vai ficar mais caro para ele.

Marina: Exato! Não, você toca num ponto fundamental assim. 

Inclusive alguns meses atrás, eu assisti a uma palestra do professor David Wilkins do Centro de Profissões de Harvard e ele trouxe exatamente isso que você está falando, assim. 

Ele diz muito que no futuro, o que vai contar muito não é em termos de qualidade, os escritórios vão estar muito similares. 

Então eles vão ter materiais, de conhecimento, de peças etc. Num nível muito bom para o que vai diferenciar cada escritório, é o que eles chamam de user experience, ou seja, é marca, Branding também, marca, ou seja, também qual é essa experiência em ser cliente de um escritório “x” ou “y”. 

Então é um pouco isso que você trouxe. E aí para continuar a falar um pouco do que a gente achou de superinteressante na pesquisa, é quando a gente perguntou também sobre, aí no caso o uso de tecnologia e geração automática de documento por tamanho do escritório, também chama a atenção que pequenos escritórios não usam, oitenta e três por cento não usam geração automática de documento. 

E grandes escritórios com mais de cinquenta advogados já usam essa geração, essa automação de documentos. Isso mostra que é uma coisa que às vezes não é tão óbvia, mas apareceu claramente, claro grandes escritórios estão investindo mais em tecnologia, talvez porque eles tenham de fato mais recursos, tanto recurso humano do aprendizado, da inserção da tecnologia, como também recursos financeiros para investir nisso. 

Mas uma coisa interessante é que a gente vê também o movimento de quem tem puxado muito a tecnologia, são bancos que têm investido bastante e as empresas, que estão começando a internalizar de novo os seus serviços, que antes elas terceirizam para escritórios, principalmente de demandas repetitivas etc, estão voltando a internalizar.

E isso pode até ter um esvaziamento dos grandes escritórios, enfim, de escritórios, por conta desse movimento das próprias empresas. 

E aí é muito interessante ver como que essa adoção de tecnologia tem sido dada pelo mercado. 

Então tem alguns escritórios, alguns exemplos, que fazem, principalmente da demanda repetitiva, fazem um spin off de uma startup. Que surge dentro daquele modelo de escritório e começam a vender serviços para outros atores desse mercado jurídico. 

Parcerias Jurídicas

Marina: Outra forma que os escritórios têm atuado com as law techs e legaltech é em forma de parceria. 

Então você contrata, essa parte vou contratar a lawtech “x” para fazer automação, a “y” para fazer acordo, a “z” para fazer coisas com inteligência artificial, enfim. Vão diversificando as startups até para testar, para ver como funciona.

E um terceiro modelo também que a gente tem visto é até de intermediação. Porque às vezes uma lawtech, legaltech não tem um especialista na área jurídica, é um grupo de engenheiros, enfim, ou têm pouco contato com isso. 

E justamente, se aproximam dos escritórios de advocacia e começam a ter eles como intermediários desse mercado. 

Então, enfim, são modelos que surgem de utilização destas legal techs, que é bem interessante que a pesquisa revela. Isso eu acho que é uma discussão, um ponto que a gente vai começar a discutir fortemente aqui no Brasil. Que isso já é uma discussão internacional fortíssima. 

Aliás, eu acho que a discussão do momento, que é a desregularização ou não da profissão jurídica. Até que ponto que a gente vai regularizar, enfim, a entrada dessas law techs legal techs ou não? 

Enfim, a OAB vai ter um papel muito importante aí para ajudar nessa comunicação, nessa evolução do mercado, e assim por diante.

Gabriel: Você tem alguma opinião formada sobre esse ponto polêmico?

Marina: É um ponto bastante polêmico mesmo. Olha, é uma questão bem complexa mesmo, porque tem interesses diferentes, diversos, interesses opostos. 

O que eu acho muito importante, é a gente ter uma transparência do que está acontecendo no mercado. 

E eu acho que um papel muito importante das instituições é oferecer para as pessoas, os dados, oferecer com transparência o acesso a todo tipo de informação para ter uma clareza nas decisões. 

Assim, as coisas no mercado jurídico brasileira ficam de certa maneira no escuro, porque, enfim, acaba sendo uma briga sem dados etc. Mas é uma discussão extremamente complexa

Existem países que não regularizam tanto, então, se entrar em sites como no ip lawyers, você vê que na Inglaterra por meio de perguntas e respostas, já soltam petições em que tem várias iniciativas, principalmente com coisas simples, como celular, atraso de avião etc. 

E tem lugares que são muito mais regulados como no Brasil que tem inscrição, obrigatoriedade de ter passado no exame da OAB, também nos Estados Unidos. 

Mas realmente o mercado vai ter que se ajustar de alguma forma, porque a gente não pode ignorar também esse movimento da tecnologia, que ela tem que servir para ajudar o homem. 

As pessoas estão com muito medo da tecnologia, claro, tem uma visão que, realmente a gente tem que olhar a desigualdade vai surgir etc. Mas a gente também tem que olhar quais são as positividade de tudo isso. De liberar o homem para outras funções. 

Então, é uma situação que a gente vai ter que encarar e debater e envolver vários atores. Mas a gente não pode ignorar a frear esse movimento está acontecendo.

Gabriel: Eu acho que a gente não pode ter extremos nessa parte, porque, geralmente assim, os defensores da tecnologia geralmente são muito radicais a favor. 

Então, são a favor de tudo e o lado conservador é contra tudo. Talvez um caminho seja um diálogo maior para a construção de uma solução melhor para todos. 

Eu também não tenho uma opinião formada sobre isso. Só que, assim, pela minha visão, o pior de tudo é justamente essa questão do radicalismo dos dois lados.

Marina: Então, mas isso do radicalismo dos dois lados é um movimento que a gente tem visto na sociedade como um todo. 

Enfim, raiz, coxinha, tudo é assim, as pessoas hoje têm uma dificuldade muito grande de dialogar. 

Então, aquela coisa então, vou te excluir da minha timeline e ponto final. Não vou conversar com pessoas que não pensam como eu. Esse problema das bolhas que têm surgido também pela tecnologia. 

Enfim, vai se comunicando com pessoas que pensam igual a você. Então isso tem sido uma marca da nossa sociedade. 

E isso também se qualifica, se demonstra, se revela nesse debate. E aí entre os conservadores e radicais desse assunto específico. Mas isso infelizmente, é uma marca da sociedade, hoje, eu acho que é um ponto que a gente tem que refletir muito claramente quando a gente está também na sala de aula com nossos alunos. 

É colocar esses alunos para dialogarem, para trabalhar comunicação, comunicação não violenta, para escuta, escuta ativa para trazer enfim. 

Para formar também seres humanos melhores e trazer todas essas habilidades que são fundamentais assim, principalmente um advogado, para um juiz e assim por diante.

Gabriel: Não, muito legal. Concordo muito com o que você trouxe, estou lembrando que quando estava no seu currículo, vi que você já tinha escrito também sobre direitos humanos. 

Deu para perceber agora um pouquinho da sua fala um pouquinho desse lado, bacana.

Tecnologia e profissões jurídicas

Gabriel: Eu queria saber uma questão Marina, assim você acha que no final das contas, fazendo toda essa análise de todos esses dados que você coletou, você acha que os escritórios eles estão preparados para usar a tecnologia hoje? 

Porque assim eu vi que, pelo que entendi, em geral os grandes escritórios eles utilizam mais tecnologias, usam mais automação de documentos e outras tecnologias que estão disponíveis para eles como resolução online de disputas que é o foco maior desse tipo de empresa que trabalha com um contencioso de massa. 

E, por outro lado, às vezes os pequenos não estão utilizando tanto. Só que pela minha percepção empírica também, o que eu sinto é que de um lado, a grande parte das soluções que existem, elas estão focando, mas nesses escritórios grandes do que nos pequenos.

E aí os pequenos realmente muitas vezes, eles não têm recurso para utilizar. O que você acha sobre isso?

Marina: Bom, acho que são reflexos também muito, não só, a gente tem no Brasil assim, contextos de advocacia completamente diferentes, assim, a gente não pode comparar a cidade de São Paulo com o interior da Bahia e assim por diante. 

Então, a realidade que se impõe hoje na advocacia brasileira, ela é muito, muito diversa. E a gente sabe que a maioria dos escritórios são pequenos escritórios e de fato, acho que tem movimentos tanto para olhar para pequenos escritórios, para facilitar a vida, como também esses produtos para grandes escritórios. 

Mas um movimento que eu sinto, e que eu acho que é isso que tem sido colocado assim. Muitos dos eventos que a gente tem acompanhado é que a tecnologia ela precisa ser desenhada, muito de acordo com as necessidades daquele escritório, com a lógica de atuação daquele local, daquele que está inserido, do que o que a gente tinha antes, do que a gente chama de want site fetchall.

Então hoje fala, de agora de design, desses contextos. Para daí, aplicar a tecnologia, muitas vezes a gente vai comprando e contratando um monte de serviços pré-fabricados que às vezes para a necessidade daquele escritório não faz sentido. A gente tem que ver muito isso. 

Existem muitos mercados diferentes. Até a própria petição online criou um mercado também. Tem locais que atuam simplesmente para auxiliar advogado da fazer esse peticionamento online e assim por diante, são, por exemplo. 

A realidade brasileira é muito diversa para a gente trabalhar a tecnologia e a resposta bem curta, é: não.

Não estamos preparados para receber tecnologia. Principalmente por isso, porque o contexto brasileiro é cheio de pequenos escritórios, e às vezes é isso que você falou, não faz sentido você adotar tecnologia tendo, enfim, casos muito variados para trabalhar. Mas então, entender um pouco, então investimento ainda é alto para isso. 

Então, assim acho que pela nossa pesquisa, como os pequenos escritórios até não estão ainda dando esse passo, com tanta firmeza de gestão de conhecimento, a gente não consegue ainda nem falar em adoção de tecnologia.

Possíveis ameaças do cenário atual

Gabriel: Assim considerando essa diferença dos tipos de escritórios, você vê algum perfil de banca de advocacia que está mais ou talvez menos ameaçada nesse cenário atual?

Marina: A lógica que a gente vê muito, olhando, principalmente num primeiro momento, para demandas que são muito, muito repetitivas. Então aquela questão que a gente fala muito do direito ter virado Crtl “c” Crtl “v” esse tipo de tarefas, elas estão muito fadadas a serem extintas e por quê?  

Porque a máquina faz melhor, mais rápido e sem erro, poucos erros e aí você vai ajustando. 

Então isso é uma questão, e uma coisa também é importante é que quando a gente, quando eu era estagiária e assim por diante, você passa por um processo também de aprendizado. Claro hoje não é mais assim, mas de ir até o fórum de buscar as informações, de fazer pesquisas de jurisprudência que faz parte do seu aprendizado. 

E uma coisa que vai começar a ser discutido, inclusive isso é uma discussão muito forte na Escócia e na Inglaterra é que os escritórios não estão mais abertos a investir nesse profissional no começo da carreira. 

Porque muito da nossa formação é desse convívio no escritório, da aprendizagem, da prática profissional no direito, e isso se dá muito nesses primeiros anos. 

Então, ir fazendo essas demandas repetitivas, enfim, você começa com coisas mais simples. E no momento que isso é automatizado, entra a tecnologia, para quem que vai esse custo da formação? 

Existem lugares que já estão discutindo que para além de um se passar no  exame, você vai ter que fazer um ano de curso para aprender a lidar com esse mercado de tecnologias etc. Para daí ter uma qualificação outra para daí poder ir para o escritório.

Então essa discussão de ter essa pirâmide ela vai se modificar bastante também na base aí por esses estudantes. 

É isso que a gente está muito preocupado e olhando também faculdade de Direito, como que a gente pode. E quem que vai suprir isso? Tem que ser no ambiente do ensino da faculdade. 

Como que a gente pode suprir, então, toda essa formação inicial que os escritórios, empresas, órgãos não estão querendo mais gastar dinheiro para isso, vamos dizer, investir nesse sentido? 

E aí uma coisa que a gente pensou muito nesses últimos três anos foi, a gente fez uma reforma no currículo para poder também. A gente sempre teve um ensino muito centrado no aluno que a gente chama de ensino participativo, uma metodologia muito diferente também da metodologia de ensino tradicional. 

A gente começou a também ter espaço para trabalhar dentro da grade com projetos, projetos multidisciplinares, com atores diferentes, com uma realidade como o mercado, justamente para expor esse aluno, aluna para todos esses conflitos, regulação enfim. 

Todos esses desafios, que essa nova realidade da tecnologia, das mudanças, eles impõem. 

Então, um exemplo que trabalhou em uma das disciplinas que era sobre internet e criança, foi justamente ver, por exemplo, youtubers mirins, que é algo muito, muito popular e que as crianças ganham muito dinheiro fazendo o vídeo etc. 

Mas qual é o limite disso? Como que a gente regula esse tipo de situação? É trabalho infantil ou não é? E assim por diante. 

Então são essas discussões muito difíceis aí das tecnologias que surgem. E aí o estudante, o advogado também precisa estar muito preparado para aprender a aprender. 

Tudo vai mudando muito rápido. Então, como que você tem um raciocínio jurídico muito profundo para conseguir construir regulações de todos esses movimentos aí? 

Seja impostos pela internet, seja por uma cidade inteligente, que quer mudar a forma como usa o transporte público, e assim por diante.

Gabriel: Eu acho que o problema é que a gente tem no Brasil é que assim, como você disse aí, salvo engano, mil e quatrocentas faculdades de direito, talvez mais do que isso né? 

E o problema é que grande parte delas não são boas. E aí acaba que a gente não tem profissionais preparados que não entendem o básico que deveriam saber o direito, muito menos de tecnologias e outros métodos aí mais efetivos para resolver os problemas dos seus futuros clientes. 

E, a gente tem um mercado de pessoas mais preparadas e, de outro lado, com esse número de faculdades, a gente tem um número cada vez maior de advogados que vão estar se formando nos próximos anos, e vão estar integrando esse mercado de trabalho. 

E em um cenário que a gente tem gente que fala do robô que vai acabar com a profissão do advogado, e tem gente que fala que o mercado está muito saturado. 

Você enxerga isso de uma forma otimista, pessimista? O que você acha? Ainda vale a pena fazer direito? Existe espaço ainda nesse mercado volátil e também competitivo?

Marina: Isso é muito importante, o que você está colocando, porque nunca vi. Fui em tantas palestras que os pais estavam tão preocupados. 

Assim, mas será que vale a pena meu filho investir em direito, já que somos um país com trocentos advogados, muitas faculdades de direito, como navegar? 

Como encarar isso de alguma maneira que eu possa garantir que tem algum futuro? E a grande questão é que sempre tem espaço para pessoas boas, pessoas qualificadas. 

O cuidado que tem que ter é justamente, se preparar em universidades que são sérias, enfim. O curso de direito é um curso muito, muito barato. Então, ele precisa de um professor e de carteira, barato para as instituições. Então, ele é um curso que é fácil construir assim, nesse sentido. 

Então a gente precisa pensar muito. Será que de fato esse acesso à universidade tem qualificado? 

Como que a gente pode melhorar esse acesso, que é tão importante?  A gente dá acesso, mas dá acesso a que tipo de ensino? 

Um ensino de qualidade ou a gente está vendendo um sonho, uma profissão que nunca vai existir, justamente por não ter uma qualidade boa da instituição de ensino? 

Então o mercado de direito de fato, a gente não precisa mais advogados, ele está saturado. 

A gente tem muitos muitos advogados, mas a gente sempre sempre tem espaço para pessoas boas. E é o que a gente precisa, não só no mercado da advocacia, mas no Judiciário, no ministério público, a gente precisa de pessoas qualificadas. 

Pessoas que estão pensando na instituição, pessoas estão pensando em construir uma sociedade melhor e assim por diante. Então sempre, sempre tem espaço para esses bons profissionais.

Gabriel: Muito obrigado, Marina. Acho que muito bacana a conversa com você. Você trouxe muitos dados, a gente sempre gosta de ressaltar aqui na Freelaw que a gente confia nos dados. 

No resto, é só em Deus que a gente pode confiar. Então é muito bom quando a gente tem uma pessoa que já conversou com tantos escritórios de advocacia e realmente conhece esse mercado de forma empírica mesmo. 

Considerações Finais

Gabriel: Eu queria saber se você tem algum recado final, tanto para os advogados mais jovens. 

Eventualmente, os estudantes que estão nos escutando, quanto também para os para o escritório de advocacia, tanto os pequenos quanto os grandes.

Marina: Eu acho que a questão até, só para fazer esse comentário de “Ai você é pessimista ou é otimista com a tecnologia”, é que depende muito de como você enquanto pessoa. 

Eu sou uma pessoa otimista, logo, também consigo ver coisas positivas, mas a gente tem que ter uma visão muito crítica sobre a tecnologia também. Então, eu acho que é um pouco isso de não se desesperar.

A gente está num hype, vamos dizer assim, desse uso de tecnologia e um tanto quanto perdido, com relação a isso. 

Mas acho que a melhor forma é entender, entender o mercado, buscar o máximo de informação, conversar o máximo possível da sua troca de experiência e agregar.

Um movimento muito legal que a gente viu também na pesquisa, é que os escritórios pequenos também estão se associando para poderem coletivamente, e colaborativamente investir em tecnologia de um jeito interessante. 

Então, isso também é um movimento bem legal assim do mercado. Essa colaboração enfim, para esse empoderamento, vamos dizer assim né. Acho que quanto mais a gente conhece, menos medo a gente sente, é um pouco isso.

Gabriel: Sobre isso, dos escritórios pequenos gente vê muito isso na freelaw. Até porque o nosso modelo de trabalho é o perfil majoritário dos nossos clientes, atualmente.

A gente vê muitos escritórios pequenos se associando uns aos outros e buscando realmente colaborar e realmente conseguir crescer, aumentar o portfólio de serviços que oferece aos clientes, conseguir ser mais competitivo comparado aos grandes. 

Porque vários pequenos unidos às vezes conseguem ter uma estrutura maior, consegue usar tecnologia de uma forma mais assertiva, conseguem captar mais clientes e com uma estrutura enxuta. Que aí vão ter custos mais baixos e, naturalmente, o cliente final acaba ganhando. Acredito muito nesse modelo.

Marina: Exato, eu também.

Gabriel: Muito obrigado de novo, Marina. Gostei muito de conhecer mais o seu trabalho. 

De novo, muito obrigado pela disponibilidade de estar falando com a gente. Eu sei que foi difícil conseguir uma agenda e assim, agradeço muito pela generosidade, pela humildade de compartilhar todos esses dados conosco. 

Tenho certeza que esses dados aí vão contribuir muito para futuras pesquisas. 

Eu espero que vocês que estão executando episódio, se quiserem se inscrever, fazerem mais pesquisas sobre o mercado, acho que o mercado precisa. 

Então vocês já tem aqui vários dados, que vocês podem se embasar. Na descrição do episódio a gente vai deixar todos os relatórios completos, todas essas pesquisas aqui que a Marina citou durante o episódio e, certamente podem ser úteis para vocês.

E fora isso, na próxima quarta feira a gente volta com mais um convidado especial. Espero que vocês tenham gostado do episódio, se tiverem gostado, compartilhem com mais algum colega advogado. Até a próxima!

Marina: Da minha parte, Gabriel, agradeço imensamente o convite. E de vocês serem pioneiros também em discutir todas essas mudanças de uma maneira transparente. 

E a nossa escola está de portas abertas para receber todos os ouvintes do programa para discutir, debater, ter ideias também de pesquisa de como a gente pode sempre qualificar esse debate, que é o nosso papel, enquanto a academia também. 

Então, agradeço muito muito a oportunidade.