O que é Legal Design? O que é o Direito 4 0?

Como lidar com a incerteza e a complexidade nos dias de hoje?

É possível combinar dados, propósito e criatividade?

O segredo para inovar na advocacia talvez seja a combinação de todos esses fatores.

É preciso ser pragmático e demonstrar os resultados em números. E, ao mesmo tempo, se reconectar com a essência, com a arte, com a cultura.

No episódio #29 do Laywer to Lawyer, o podcast da Freelaw, Gabriel Magalhães entrevista Christiano Xavier.

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Christiano Xavier

Ele é advogado, idealizador e fundador da Future Law e do Studio LSD – Legal Service Design.

O Christiano possui inúmeros cases de inovação na advocacia do Brasil, inclusive um dos principais (pelo pioneirismo e resultados apresentados), e também já teve a experiência de trabalhar em escritórios de advocacia consolidados no Brasil e no exterior.

Gabriel Magalhães

É um dos fundadores da Freelaw e o Host do Lawyer to Lawyer. É bacharel em Direito pela Faculdade Milton Campos.  

Possui formação em Coaching Executivo Organizacional, pelo Instituto Opus e Leading Group.    

Formação em Mediação de Conflitos, pelo IMAB, e em Mediação Organizacional, pela Trigon e pelo Instituto Ecossocial. Certificações em Inbound Marketing, Inside Sales e Product Management pelo Hubspot, RD University, Universidade Rock Content, Gama Academy e Tera, respectivamente.      

Escute o episódio em seu player de áudio favorito e leia o resumo do episódio abaixo que conta com todas as referências citadas durante a gravação.  

Gabriel:  Hoje estamos aqui com um dos maiores nomes do Brasil no que se trata de tecnologia no Direito. 

Estamos aqui com Christiano Xavier, ele tem um dos maiores cases do Brasil. Se você pesquisar pelo nome dele, você vai ver várias notícias de que ele ajudou a Localiza Hertz a economizar milhões de reais. 

E o Christiano, além disso, é um dos cofundadores da Future Law, uma das empresas de educação que estão também liderando todo esse sistema. 

E ele também atua na área de Legal Design, e é um dos cofundadores do Legal Service Design, é até difícil de falar, o LSD. 

Eu tenho orgulho de dizer que ele é meu primo e um dos meus mentores, e se eu estou aqui hoje nesse episódio aqui número 29, certamente tem muito dedo dele aqui nisso, então fico muito feliz de compartilhar um pouquinho da história dele no episódio de hoje. 

O Christiano ele conta desde o início da faculdade dele, desde os estágios até das experiências que ele teve fora do país, e como que ele foi saindo de uma advocacia tradicional para ir para esse novo mundo no direito, e ele também traz o que é o Legal Design, e como os escritórios de advocacia podem estar utilizando essas práticas atualmente. 

Se você quiser saber o que é legal design e se você quiser realmente criar um novo modelo de escritório de advocacia, você está no melhor lugar, sem dúvida.

A gente ainda trata de questões que às vezes ficam um pouco esquecidas, a gente fala muito agora de números, a gente está na era agora dos dados. 

O Christiano também traz um pouco de propósito aqui nisso tudo, e como pode haver uma combinação sim, entre dados, entre as ciências exatas que estão cada vez mais invadindo o direito, mas também esse lado mais humano. 

Gabriel: Christiano, bem-vindo ao Lawyer to Lawyer, é um prazer estar aqui recebendo conosco. Muito obrigado pela sua presença. 

Christiano: Valeu Gabriel. Eu que agradeço, é um prazer falar com você e com todo mundo. 

Carreira no Direito 4.0

Gabriel: Conta um pouquinho da sua história para a gente, como você trabalhava na Localiza antes, você tem um dos maiores cases do Brasil de inovação, é uma das pessoas mais importante desse ecossistema. 

Como você começou a buscar a inovação? Você sempre teve isso no seu DNA, ou foi algo aleatório? 

Fala um pouquinho também como que você chegou no Legal Design, o que é isso, para as pessoas que ainda não sabem?

Christiano: Legal, vamos lá! Minha história começa até antes da Localiza. 

Eu trabalhei na Defensoria Pública. Trabalhei também do Juizado Especial de Pequenas Causas. Posteriormente, trabalhei  na OAB, tem até um caso interessante de que eu era um pouco sem entusiasmo com o curso de Direito. 

E aí um professor me chamou na sala, o Hermes, foi a primeira pessoa, eu digo que foi uma das primeiras pessoas que acreditaram em mim, no meu potencial de trabalho, me chamou e falou “você está precisando de um trabalho? 

Estou vendo que você está desanimado”, e eu falei “se você puder me dar esse trabalho, eu agradeço!” 

E fui trabalhar na OAB,  princípio, na comissão de prerrogativas do advogado, depois trabalhei também na Comissão de Direitos Humanos, e foi uma experiência muito legal, porque eu tenho refletido muito sobre essas questões da essência do advogado, da nossa missão, que eu acho que nós todos estamos perdendo isso, pelo menos, das pessoas com as quais eu convivo hoje. 

A gente está muito focado na questão do mercado e pouco na questão da busca do cumprimento da lei, da justiça social, da ajuda aos mais fracos. 

Então, o meu histórico, ele puxa muito para isso. Eu tenho refletido bastante sobre essa questão e como que a gente vai poder, usando a inovação, a criatividade e as novas tecnologias, mudar essa história, para a gente poder recuperar essa essência. 

Eu estudei em YALE um tempo e lá foi me apresentado um livro chamado “The Last Lawyer”. 

Então era essa pegada também: porque, de onde, aonde foi que a gente se perdeu, para virar essencialmente figuras voltadas quase que exclusivamente para o mercado, sem pensar nessas outras questões sobre as quais eu mencionei. 

E isso tudo foi muito importante, é ainda, essa essência na minha vida profissional, e certo é que eu fiquei lá na OAB, Defensoria Pública, e antes no juizado especial, mas eu fui convidado para trabalhar no Azevedo Sette Advogados

Eu trabalhei lá mais ou menos uns oito anos, foi uma grande escola para mim, eu tenho uma grande admiração e carinho por esse escritório. 

Na época, era o único escritório que fazia grandes operações. E lembro que eu entrando lá, com perfil completamente diferente das pessoas que estavam lá, mas com uma essência de muita luta. 

E fui trabalhando, praticamente abandonei a faculdade, e só trabalhava, e todo mundo lá trabalhava muito, era muito mais focado naquelas questões do aprendizado que hoje a gente chama de “aprender fazendo”, do que nas aulas. 

Hoje muito se tem falado sobre isso, mas na época a gente fazia isso naturalmente, sem precisar sem ter essa ideia do “aprender fazendo”. Nesse período trabalhei no contencioso cível, depois eu fui trabalhar com o contencioso tributário, que acabou virando a minha linha de atuação por muitos e muitos anos, com o planejamento tributário. 

Fiquei como coordenador de due diligence da parte tributária, e chegou um período, um período até bem triste da minha vida, que eu fui pedir para o Ordelio Sette para me arrumar uma experiência internacional. Eu queria sentir essa experiência. Todo mundo das pessoas que trabalhavam no Azevedo Sette tinha a oportunidade, pelo poder aquisitivo e tal, de ter estudado fora, trabalhado por um ano, e eu não tinha tido essa oportunidade naquela época. 

Quando as pessoas iam, eu pensava “será que algum dia vou conseguir?” E acabou que eu consegui, fui trabalhar num escritório em Dallas, o Ordelio conseguiu isso para mim, foi muito legal essa experiência lá fora. 

Legal em dois sentidos: eu já estava em crise com a advocacia, porque eu nunca gostei de fato da prática, de ser advogado, de fazer petições, de ficar sentado. Não sou uma pessoa de ficar sentado, eu sou uma pessoa de fazer, de realizar, meu negócio é ação o tempo todo, e gente. 

E ficar ali, eu e o computador, escrevendo peças muitas vezes repetitivas, aquilo me cansava e me causava uma angústia. 

Então eu fiz essa experiência lá fora, achei que ia ser legal demais. É lógico que é todo um aprendizado, para quem já morou fora sabe que é um aprendizado tremendo, mas em termos da advocacia propriamente dita eu falei “cara, eu não consigo fazer isso para o resto da vida, eu vou ficar muito deprimido se eu tiver que seguir essa linha assim”. 

E aí, a partir disso eu consegui voltar, e eu tinha uma amiga, Cláudia Leão, com quem eu já tinha trabalhado, prestado serviço para Localiza, e ela me chamou para montar um departamento tributário ligado à diretoria financeira. 

E ali eu comecei na Localiza, pedi um tempo antes de voltar, como estava nos Estados Unidos e logo fui para a Europa. Sempre gostei muito de arte, e aliás acho que isso também faz toda a diferença. 

A gente pode falar sobre isso, sobre a questão da arte, criatividade, como que essas coisas estão intimamente ligadas e a inovação também. Mas eu fui para Europa, visitar os museus, as feiras e a arte, entender um pouco da cultura europeia. 

E foi muito importante em comparação período posterior, na Inglaterra, que eu fiquei mais visitando os outros países. 

Quando voltei, a gente montou esse departamento, eu trouxe a Luiza Carneiro, que trabalhou comigo, era estagiária, e começou a trabalhar comigo para montar esse departamento e a gente começou a ter sucesso. Então fomos trabalhando e tal, até que um belo dia, teve a crise de 2008 e todas as empresas do Brasil passaram por um processo de redução de custos, melhoria de processos de gestão. 

A localiza tinha contratado a Falconi para fazer uma reestruturação na empresa inteira, voltado principalmente para as questões de redução de custos. E ali eu apresentei um projeto de internalização dos processos tributários. 

Foi meu primeiro projeto, estava com um escritório terceirizado e a gente trouxe. Trouxe também o Luiz Massará, que na época cuidava dessas causas, e ficou responsável por produzir. A gente teve uma economia de um milhão, trezentos e sessenta mil reais no primeiro ano. Isso abriu as portas para vários outros projetos. 

Hoje na consultoria para empresas e departamentos jurídicos eu digo para as pessoas: tragam dinheiro primeiro, coloque dinheiro na mesa, porque você vai conseguir convencer todas as outras pessoas, o board da empresa, as diretorias, os sócios dos escritórios, de que aquilo vale a pena ser investido em algumas coisas, algumas práticas inovadoras. 

Depois você faz outros projetos, porque como a gente estava falando aqui há pouco, o mundo jurídico ainda é muito conservador, e não tem tanta aceitação, está melhorando muito, mas ainda não aceita tanto as práticas inovadoras. 

A gente quase que somos os evangelistas de ficar tentando difundir a necessidade dessa mudança, principalmente frente aos riscos que a gente vê que estão chegando. 

Obviamente, não é aquela coisa que todo mundo fala de que “amanhã o advogado vai acabar, vai ser substituído por um robô”. Muito pelo contrário, não vai acabar, aliás, vai ser cada vez mais valorizado. 

Mas tem algumas ameaças, algumas mudanças, principalmente na questão das atividades mais operacionais, que essas sim deixarão de existir, e aí tem uma dificuldade dos estagiários e advogados junior, de como é que eles vão trabalhar ali naquela base, no começo, para poder se tornarem advogados mais experientes e poderem de fato trabalhar na economia digital. 

Mas existem outras ameaças, por exemplo, para os escritórios, como o surgimento e fortalecimento das Alternative Legal Service Providers, que são os serviços jurídicos alternativos que ganham essa força no mundo inteiro, por exemplo, como as próprias Big 4, que já vem tomando cada vez mais parte do serviço jurídico que antes eram realizados pelos escritórios e também plataformas. 

E também plataformas como a Axión, que é uma plataforma de talentos, como a Ellevate. Então começam a surgir as próprias Legal Techs também, serviços jurídicos alternativos. 

Tudo isso vira uma ameaça, e uma ameaça ainda maior porque a gente é um mercado muito regulado ainda, a OAB proíbe propaganda, proíbe os escritórios e advogados de receber investimento, é uma série de limitações.

Então, como competir com plataformas e empresas que hoje exercem serviços jurídicos e que estão recebendo aportes de milhões de dólares para investir em inteligência artificial, por exemplo, se você não pode receber um investimento?

É isso tudo, tem uma ameaça que é regulatória nossa, que a gente tem que começar a dialogar com a nossa comunidade, com o nosso órgão de classe nesse sentido, porque se não vai ficar muito difícil essa competição. 

E também para os escritórios, por exemplo, tem uma questão que é a internalização das atividades jurídicas, que virou uma constante e vem se acelerando também. Veio um diretor, vice-presidente da DHL, daqui um ano dois anos, e ele me mostrou esse gráfico de contratação de advogados por empresa, governo e escritórios. 

O de empresa é muito maior no mundo. Então, a gente vê que essa é uma tendência. E quando eu converso com algumas pessoas, elas falam “não, esse movimento já aconteceu, ele é cíclico.

E eu falo que isso era de outra época, hoje, com as novas tecnologias, eu não sei se esse movimento vai ser cíclico.  Aliás, ninguém sabe o que vai acontecer.

Se você imaginar o que era o mundo do direito, há três anos atrás, e o que é hoje, e o que vai acontecer em três, cinco anos, com a chegada do 5G, por exemplo, com a lei de Moore explodindo aí, o que é que vai virar?

O que vão ser todos os serviços, não só os serviços jurídicos, para onde a gente vai caminhar? 

Gabriel: Te escutando, uma questão que eu queria destacar é que o mundo mudou muito nos últimos anos, só que tem advogado que não percebeu isso. 

Tem advogado que tem 20, tem 30 anos que está advogando da mesma forma. 

E eu acho que quando a gente escuta a trajetória sua, que você contou até então, a gente já tem vários exemplos de reinvenção, você começou na defensoria, depois mudou para a OAB, depois para o escritório advocacia, foi para fora buscar experiências, foi para o departamento jurídico e agora você vai contar para a gente dar a trajetória do Legal Design. 

E sempre se atentando as novas questões. 5G, será que isso tem relação com a advocacia? Nenhuma aparentemente, mas se a gente ficar cego a essas mudanças a gente vai ser engolido por essas outras empresas. 

Então tem Law Techs recebendo aporte milionário, e tem escritório que nem sabe o que é Law Tech, e que também não está analisando esses aportes estão acontecendo. 

Só que podem ser algumas dessas Law Techs que ou vão aumentar o seu diferencial competitivo, ou vão aumentar o diferencial competitivo do seu concorrente, por exemplo.

Christiano: Interessantíssimo, porque estou lendo um livro agora do Humberto Mariotti, chama O desafio da incerteza, aliás estou indicando esse livro para todo mundo. 

E tem uma parte que ele fala: todo mundo quer criatividade, todo mundo quer inovação, todo mundo quer democracia. 

Mas isso tudo é muito difícil, porque no final as pessoas querem segurança, querem metas, sabe? 

Elas querem previsibilidade. O medo de mudança é muito grande e tem um preço a se pagar. Tem um preço em ser criativo, em inovar, porque isso remete, eu tenho feito essa reflexão, à escassez. 

Vamos pensar, por exemplo, nos povos periféricos, que são criativos por natureza, mas são criativos por necessidade, não é verdade? 

E também se você pensar que a criatividade também está intimamente ligada as questões da liberdade, e ser livre dói também. 

Ser livre está relacionado com a questão do autoconhecimento, sabe? Quem já passou por um processo de análise, sabe o que é isso, esse processo de autoconhecimento. 

Ele também exige um investimento de interação, percepção, experiência, tempo, dinheiro, com as artes. Você tem que investir muito em arte, cultura, música, teatro, cinema… então exige-se muito. 

Às vezes eu fico vendo as pessoas falando sobre criatividade e inovação, eu falo “meu Deus”.

Porque é muito mais do que isso, não é comprando o livro “Oito Passos para se tornar criativo” que você vai se tornar criativo, ou “Os dez passos para inovar”, ou então fazer o curso da moda.Tem muito mais coisa do que isso. 

Então as pessoas têm esse medo, e esse medo é um medo natural da mudança, inerente a todo mundo. 

Vencer essa barreira é necessário neste momento, porque se não a gente, esses advogados vão continuar trabalhando com os trabalhos operacionais, que é exatamente o que vai desaparecer. 

É lógico que muitos ainda ganham bastante dinheiro com isso, fala “não tenho necessidade dessa mudança, não vejo essa necessidade”. Mas, como a gente falou, está tudo mudando muito rápido, a gente não sabe como vai ser. 

A gente tem processos muito fortes acontecendo, como o surgimento das plataformas de negociação, as empresas cada vez mais olhando isso sob o ponto de vista financeiro e não jurídico.

 Então ele pega uma carteira trabalhista e fala “poxa, isso aqui, se ficar comigo aqui, é uma dívida rendendo a 12% ao ano, no mínimo”, mais os custos com advogados.

Qual investimento meu da 12% ao ano, a empresa olha para dentro e fala: nenhum, tenho que fazer acordo. O próprio Judiciário tem incentivado, com o consumidor.gov. 

A tendência é que também vai haver uma diminuição do número, com as reformas acontecendo, liberalizantes. 

Há uma tendência de diminuir o número de processos, e essas pessoas que vivem do litígio hoje, elas têm que ficar atentas. 

Então fica aí como reflexão para os advogados mesmo pensarem, “até onde eu posso resistir? Ou eu vou abraçar esse novo e seguir nesse novo modelo, tentar entender o que está acontecendo e trabalhar essas outras novas possibilidades?”.

 Bom, voltando ao ponto inicial, lá na Localiza, depois a gente começou uma série de medidas voltadas para o ganho de produtividade e redução de custos. 

E aí um belo dia a gente teve uma necessidade tributária, de uma questão de IPVA da Localiza, e foram duas dezenas de milhares, 20 mil autos de infração que a gente precisou defender.

E aí foi quando a gente contratou a plataforma NetLex, do Flávio Ribeiro, e começamos a fazer o trabalho. Foi nossa primeira experiência real. 

O Flávio tinha ido lá, numa reunião que a gente chama de “reunião das ideias”, que eu sugiro para todo mundo. De 15 em 15 dias reúne sua equipe, fale de temas que não são relacionados com o direito, façam debates, promovam diálogos. 

A gente teve isso, e aí começamos a ter contatos, por meio da TI, com o design thinking e os métodos ágeis, começamos a trabalhar muito para o projeto. 

Lembro exatamente como o design thinking apareceu, lá em um projeto da Localiza, um cara chamado Igor chegou e falou “vamos melhorar esse processo”. E lembro daquele tanto post it na parede, pensei “o que que é isso que está acontecendo aqui?” 

E fomos ver, contratamos mais o Bruno, que também tinha aparecido lá para apresentar a Sem processo, que a gente acabou contratando depois também, junto com outras plataformas de negociação. 

E também contratamos plataformas de Legal Analytics, de contratação de correspondente online, e começamos a criar um núcleo de inovação. 

Então aquilo deu muita energia e vivacidade para o time inteiro. Eu costumo dizer que a gente tinha um time mais júnior, mas com uma pegada de entrega que é muito difícil de se ver. 

O time entregou muito, usando a inovação ou não, porque a gente começou a trazer outras coisas, de outras ordens, de outras esferas também, como trabalhar em equipes multidisciplinares, tentar não contratar com base no currículo e sim com base nas competências.

Então a gente tinha isso lá atrás. Ninguém falava nisso. 

E aí, hoje, olhando para trás, quando vejo esses resultados, de setenta milhões de reais em três anos, eu vejo muito mais ligado também às pessoas do que às novas tecnologias, muito mais ligada à capacidade de gestão do time do que às novas tecnologias, ao contrário do que foi falado na época, que acabou ajudando minha carreira, mas era uma coisa muito mais de gestão. 

A gente tinha isso, o time tinha isso, ele vibrava de forma diferente. Tanto é que foi uma experiência transformadora para todo mundo, hoje muitos não estão há mais, acho que a maioria não está, mas foi muito legal, foi transformador. 

E ali, naquela pegada, as pessoas começaram. O Bruno começou a fundar a B2L, começou a ter uma influência grande no país, no mundo da inovação. Aí ele escreveu um artigo, “As dez pessoas que vão mudar o mundo do direito”. 

E eu era uma delas. E aí o pessoal começou a falar: a Localiza tem um case, foi o primeiro case no Brasil estruturado, ainda que não totalmente estruturado, de inovação. 

E o Bruno foi falando isso, e as pessoas, as empresas, começaram a ir até Localiza, ver o que estava acontecendo. Eu recebia gente lá de grandes empresas.

E ao mesmo tempo fui chamado para fazer palestras pelo país todo, e comecei com essa coisa de fazer essas palestras, até que eu fui convidado para fazer a palestra da Starts. 

E aí minha vida mudou de cabeça para baixo, porque falando ali para 1200 pessoas, aliás, eu costumo dizer que nunca senti tanto medo na minha vida na hora que eu abri aquela porta, falei “cara, não vou conseguir falar pra esse tanto de gente.” Mas foi super importante esse desafio. 

E depois dali começou a minha vida, muito interesse das pessoas, várias pessoas me procurando com várias oportunidades, “vão montar isso, vão montar aquilo” etc. 

A adaptação ao Direito 4 0

Gabriel: Eu estava na plateia enquanto você estava falando nesse evento que foi em 2017. 

O Christiano foi a pessoa que mais me incentivou no evento. 

Ele falou “Gabriel, está acontecendo um movimento muito grande de inovação e tecnologia”. 

Ninguém falava sobre isso. Ele falava que eu tinha que ir, e aí eu fui, eu estava lá na platéia, fiquei todo orgulhoso vendo ele lá.

Christiano: Aquilo mudou mesmo a minha vida, e a partir dali, em agosto, eu ia montar um curso para o IBMEC, de novas tecnologias e inovação para melhorar a gestão jurídica. 

E chamei o Rodrigo, do PG Advogados, e o Bruno, e pedi ajuda para montar. 

Como eu já tinha feito cursos na Perestroik, o The Friends of Tomorrow, sobre futurismo, e eu já estava estudando bastante, já tinha comprado o livro “Organizações exponenciais”, já estava com uma pegada de fazer uma coisa diferente, montar um curso meio Perestroika para o mundo do Direito, levando design, levando novos modelos de gestões horizontais, por exemplo. 

E aí o Rodrigo falou: “porque a gente não monta a Future Law? Monta uma escola”. Eu falei que vamos montar, beleza, daqui dois ou três meses ou vou sair da Localiza, e vão embora! 

O momento é esse! E aí uma semana depois o Bruno, que sempre anima qualquer coisa, que é muito para frente, sempre ligado em querer investir e criar as coisas, e montar as coisas.

Só que o Rodrigo desistiu em duas semanas e o Bruno me apresentou o Alexandre, que era um cara da educação, que ia ajudar a gente, tem cursos já de ciência de dados aplicado ao direito, e fomos conversar com ele. 

A gente foi conversar com ele, e ali mesmo, o próprio Alexandre já deu a ideia de chamar de Future Law, e aí a gente montou. O primeiro curso vai ser o curso do próprio Alexandre, que já estava montado. Foi um sucesso, 70 pessoas no curso, a gente teve que colocar até num auditório. 

E aí eu indiquei para esse curso um cara do Serasa Experian, o Marcelo Pimenta, que começou a levar o negócio do dado, e a Denise Eller, mineira, aqui de BH, craque, minha amiga, que levou o design e fez uma jornada de costumer experience. 

A partir dali, a gente montou o segundo curso, aí sim o curso da Perestroika que eu estava imaginando. A gente chamou Pedro Nonati, que era um cara envolvido com o digital do Itaú, a Ana Júlia, que hoje é head de transformação digital do Telecine, para falar de gestões, baseada no livro “Reinventando as organizações – Frederic Laloux”, para falar de gestões horizontais, de auto gestão, de integralidade, de senso de propósito. 

Levamos o Alberto Campos, VIP do Serasa Experia, para falar de métodos ágeis, mentalidade ágil, e própria Denise Eller também fez uma jornada. 

Foi um curso maravilhoso, foi uma mudança, porque a gente também estava incubada no IDP, porque o Alexandre era diretor do IDP, então foi o primeiro curso fora do IDP, dentro de um co-working. 

Foi maravilhoso, as pessoas que passaram por ali por esse curso, falaram “que isso, não imaginava que isso pudesse acontecer”. E aí a gente lançou, a Future Law virou o sucesso que é hoje. 

A gente está fazendo quatro, cinco cursos por mês, já com uma sede nova, patrocinada pela Thompson Reuters, o Flickr. Estão todos convidados, porque a gente é um espaço aberto em São Paulo, geralmente também se quiser assistir uma aula, não o curso inteiro, a gente recebe os convidados. 

A gente está lá com o curso de legal design thinking, de ciência de dados aplicado ao direito, de analista de dados, de métodos ágeis, de proteção de dados 360º, de costumer experience. 

Então são vários cursos, e a gente está com a ideia de lançar agora mais quatro ou cinco cursos, mais um curso online, mais esse grande evento que a gente vai fazer agora no final do ano.

A Future Law está muito bem, cresceu muito, e sem falsa modéstia, eu acho que a Future Law hoje dita, você vê que tudo que a gente falou, fez, e foi realizando, virou tendência no mundo do Direito. 

E eu acho legal, e isso dá para a gente mais ainda responsabilidade, porque a régua está subindo. Quando a gente começou não tinha ninguém praticamente, e hoje são vários cursos, e já entrando agora na parte do legal design, e eu sempre apaixonado por essa coisa da gestão, principalmente da gestão de gente, eu montei uma consultoria lá no começo da Future Law. 

A Future Law nasceu como consultoria e educação, posteriormente por modelos de negócios a gente optou por ficar só com o educacional. E eu montei ali com o Alexandre uma consultoria trazendo já os conceitos de design. 

Não se ouvia falar muito ainda –  apesar de que tinha a Standford, a gente pegou esse nome lá de Standford, do legal design lab – mas essa coisa era muito vaga, tanto é que você começava procurar sobre legal design, e tem até um artigo interessante, um dos primeiros que li, que falava “what the fuck is legal design”, que eu achei muito interessante porque você via que as pessoas que eram consideradas expoentes da área, cada uma falava uma coisa. 

Uma fala design thinking, outra fala é o método centrado nas pessoas de resolução de problemas, outra resolução de problemas complexos centrada na pessoa.

O que tinha de comum era sempre a centralidade no ser humano. Ferramentas? Cada um falava que era de um tipo, não havia um consenso. Até porque, estudando hoje, essas nomenclaturas ela servem como uma base, não tem que segui-la. 

É lógico que tem uma metodologia ou metodologias, mas a grande questão é: como vou resolver esse problema? E aí sim, focar no ser humano? 

Não precisa dessa necessidade que as pessoas tem de tangibilizar as coisas e os fenômenos. Então a gente quer falar “liga o design a isso, costumer experience é isso”. 

Poxa, porque a gente não pode só trabalhar essas dores usando ferramentas do source design, do design thinking, enfim, de qualquer uma dessas ferramentas que surgem, mas colocando equipes, aí um componente novo também, por exemplo, a centralidade obviamente no ser humano, mas trazendo equipes multidisciplinares, que é aí que eu acho que faz toda a diferença. 

Principalmente para nós advogados que não estamos acostumados, a não ser o pessoal do tributário que sempre trabalhou com computadores, o pessoal do financeiro e da consultoria também… mas geralmente a gente não trabalha muito com a multidisciplinaridade. 

Então no mundo hoje, que precisa cada vez mais de um designer, seja para construir um produto, seja para melhorar um serviço, essa figura se tornou essencial. 

Hoje também, depois da consultoria, eu montei a Impact, focada em Legal Analytics, e agora eu estou com a LSD, que é a Legal Service Design, fazendo projetos, muitos projetos, e a gente faz nesse sentido, tentando trazer a coisa para o viés prático para as pessoas poderem entender.

A gente acabou de fazer, por exemplo, na semana passada, juntando o escritório Coimbra Chaves, o Banco Volkswagen, e um designer da DTI, e nós, numa sala para resolver uma grande dor do banco. 

E isso é muito legal porque é muita experiência, a gente trouxe o cliente, trouxe um facilitador da DTI, um gerente projetos digitais, trouxe os advogados e a gente trabalhou em outras esferas. E é só o começo, a gente agora está começando a parte de automação, que é montar o produto mesmo. 

Como é interessante, e como isso muda, e como isso gera valor. E o mais legal é que tem um vídeo, depois as pessoas vão poder assistir, que nos depoimentos as pessoas falam: eu tenho 25 anos na área eu nunca vivenciei isso, tenho 41 anos na área do que vivenciei isso, eu tenho 8 anos de pricing/PWC e nunca vivenciei isso.  Até uma empresa internacional.

E outros cases também. O Legal Design tem várias ramificações, como o próprio visual law, tem esse desenvolvimento de produto, a gente já fez, por exemplo, na Centauro, a reestruturação inteira do departamento, chamamos de plano de inovação.

Foi muito legal, porque a gente usou “toys”, bonequinhos de brinquedos de todas as idades, e ali, as pessoas construíram, no chamado “Storytelling”.  A Denise Eller trouxe isso pra gente, me ajudou a montar esse plano de inovação. 

E ali as pessoas montavam a área, como ela era, e com todos os seus problemas, todas as suas dores. 

E no lúdico, e todo mundo fala tudo, geralmente. E o que era e é diferente nessa técnica, é que as pessoas que vivenciam os problemas são convidadas a participar, e não ficam só a cargo dos gestores. 

Então, todo mundo falava os problemas, depois tirava esse papel, e colocava um outro e falava “agora desenha com os bonecos como é que seria um mundo ideal”. Logicamente, as pessoas querem quase que tudo automatizado e tal. 

E as tecnologias não estão tão longe de entregar tudo que as pessoas imaginam que a tecnologia possa entregar, e não estão entregando muito em razão da falta de investimento hoje.

As Law Techs tem um grande desafio se comparadas, por exemplo, às Fin Techs, ou a uma Health Tech. Essas empresas recebem hoje muitos aportes, até bilionários, em comparação aos investimentos de hoje em Law Techs, que são muito baixos.

Então quanto menos investimento, menos a capacidade de se desenvolver, embora já tenha se desenvolvido muitíssimo.

Então a gente fez esses trabalhos, depois entra numa fase aprofundamento e tal, usando tanto esse Problem Frame, como também uma consultoria tradicional, como também aplicando alguma Law Tech no meio do caminho para automatizar algum processo, ou no final para automatizar as próprias petições, fazer trabalho de Legal Analytics, etc. 

Usamos também para fazer o Legal Analytics, que é a captura de big data, geralmente se compra dados, coloca isso numa planilha, faz a comparação com os dados da organização, e ali a gente extrai sites para as empresas poderem fazer os preventivos, para não ter que existir uma próxima geração de processos. 

Então você começa a criar ali o que é, quais são seus problemas, quais são as causas e a raiz de todos os seus problemas, e quanto você vai gastar em cada causa raiz dessa. E dali para frente a gente constrói o preventivo, e para trás a gente faz um trabalho de negociação do passivo, gerando muito valor. 

Outro tipo de trabalho que a gente está fazendo, também usando o design, é o legal branding, que é também uma carência grande dos escritórios de advocacia, ou a própria gestão de mídias e produção de conteúdos, principalmente em razão dessa proibição da OAB. 

Tem um limite que é difícil de você trabalhar com isso. Tem também trabalhos de customer experience, que eu acho que vai ser a próxima onda de todos os escritórios e departamentos jurídicos, porque vem uma coisa dessa interação, de tentar entender, de não construir, como é feito atualmente, as coisas de dentro para fora, de olhar para seus processos de gestão e trabalhar neles e depois tentar buscar o cliente. 

Falar: eu trabalho assim, eu faço meu documento dessa forma, e é isso aqui. E assim gastando muitas vezes, recursos desnecessários, porque muitas vezes os clientes não querem aquilo. 

Então a gente faz esse trabalho, de tentar entender essa jornada do cliente, com todos os trade points, de como ele é atendido, como a experiência dele é percebida dentro da organização. A gente tem feito trabalhos nesse sentido, de tentar entender quem é esse cliente. 

A primeira coisa é saber quem é cliente: será que é um cliente, vamos supor, se é um escritório que atende mineradora, plano de saúde, etc, será que é o mesmo perfil? 

Será que eles querem receber a mesma coisa? 

Quem é o comprador de serviços jurídicos? 

É o suprimentos, ou o diretor jurídico, ou o CEO? 

Quem é o comprador? 

Então a gente começa a trabalhar essas personas. A gente fez trabalho também de entender a persona juiz: o que esse juiz quer receber? É um trabalho de Visual Law. O juiz quer receber essa petição como, como é que a gente facilitaria o trabalho dele?

Então, olhando todo esse trabalho, acho que o customer experience é um produto que vem com tudo agora pela frente, em que eu acho que os escritórios vão focar. 

São várias coisas para resumir. Muito legal que o design tem entrado no mundo do direito e tem entrado cada vez mais com força, não só no mundo do direito, mas todas as organizações e em todas as áreas tem passado, tem incorporado o design. 

É legal que há dez anos atrás, o Tim Brown escreveu um livro sistematizando o desenho, falando como isso ia causar uma grande mudança nas organizações dali para frente. E é verdade, tem causado muitas mudanças. 

As pessoas ficam felizes de participar, elas ficam felizes de tentar imaginar de ser o centro e de pensar o outro no centro. Isso tudo vai causando essa coisa que a inovação traz de mais positivo, que é essa expectativa de que a gente possa viver num mundo melhor. 

Porque hoje, como a gente tem vivido num mundo muito conflituoso e cada vez mais dividido, a nossa grande esperança, além de ser as novas gerações, é esse novo tipo de trabalho, aquilo novo que traz as pessoas para realizarem algo que faça sentido para elas e para a comunidade, para o mundo. 

É sobre como a gente vai melhorar as grandes questões do mundo. E o design vem para isso, e a gente como pessoas do mundo do direito, a gente tem que usar isso para as questões de como a gente vai promover essa justiça social, como é que a gente vai olhar para essas pessoas. 

Porque é legal a gente trabalhar nas grandes organizações, nas grandes empresas, nos grande escritórios, fazer todo esse tipo de trabalho, mas sempre fica a seguinte pergunta: como é que a gente vai melhorar a sociedade? 

Talvez eu queira acreditar, e trabalho para isso, em mudar as organizações para que elas possam mudar a sociedade. E a gente vê isso acontecendo. 

As organizações também têm se transformado, têm abraçado questões, por exemplo, como a diversidade, mais fortemente nos últimos tempos, questões de sustentabilidade também, de preservação do meio ambiente. 

E eu tenho certeza que o Legal Design pode contribuir muito com a comunidade jurídica de um modo geral.

Gabriel: Muito valioso o que você está trazendo para a gente, Christiano. Eu vejo muito no design, não sei se você concorda com isso, mas é como se fosse um ato de você assumir a responsabilidade das coisas. 

Porque em geral, o cliente é o chato, então grande parte dos escritórios de advocacia têm o hábito de reclamar do cliente, dizendo que o cliente é chato, da mesma forma que o departamento jurídico diz que a pessoa como quem eu me relaciono também é chata. 

Mas será que é isso mesmo? Você entendeu bem o que esse cliente quer, quais são os problemas dele, quais são as necessidades dele, o que ele espera de você? 

Aí se você começa a ter essa empatia pelo outro, você consegue começar a desenvolver melhores soluções. E um perigo para quem não está fazendo isso é porque a gente está ficando cada vez mais habituado a ter isso. 

Os bancos digitais, por exemplo, estão crescendo numa velocidade exponencial, porque o que eles vêm fazendo é basicamente ter empatia pela pessoa que é correntista do banco. 

O que os bancos tradicionais pouco tiveram ali nesse tempo de existência. E a gente já tem o Netflix, Spotify, tem banco digital, e a gente está sendo tratado por advogados da mesma forma há 40 anos. 

Será que isso ainda vai continuar acontecendo? Já tem alguns poucos advogados que estão consumindo conteúdos, como você que está escutando esse podcast, que já estão começando a aplicar o Legal Design, oferecendo serviços muito melhores, porque quando você entende o seu cliente e realmente entende a sua jornada, entende o juiz, entende todo mundo ali, você consegue ter clientes mais fiéis, fomentar o boca a boca, que é a principal forma de aquisições de clientes que acontece no direito e, além disso, produzir conteúdos que podem ser interessantes para esses seus clientes. 

E então tem várias ferramentas avançadas, como Christiano trouxe para a gente, Legal Analytics, você pode buscar Law Techs, pode buscar automação de documentos, a resolução de disputas online. 

Tudo depende muito de você entender seu cliente, entender seus maiores problemas. Mas acho que a mensagem central é isso. Empatia pelo outro, não sei se você concorda com isso.

Christiano: Concordo totalmente, sim. A questão da escuta, tudo se resume a escuta, no final das contas. A gente escuta pouco. A gente fala muito e escuta pouco. E escutar tem muito a ver com essa questão da empatia, aquela escuta ativa. 

Qual é o desejo do outro? Isso talvez é uma das coisas mais importantes, e a gente, nós somos líderes assim nas nossas organizações, a gente tem esse papel que eu costumo dizer, de expandir a consciência, de trazer novos olhares para a inovação jurídica, para a prática jurídica. 

Que novos olhares são esses? É tudo isso que a gente disse. A empatia é a multidisciplinaridade, é a questão da diversidade. 

Quando você chegou, a gente estava conversando em off aqui, e eu falei “cara, hoje, a gente está promovendo o que a gente chama de inovação aplicada, ou inovação sem espuma, porque tem muita gente falando e pouca gente aplicando. 

Muita gente falando de diversidade, mas na hora que você vê a equipe elas não são diversas. Então, é um próprio entendimento, ter esse novo olhar, e mais do que isso, é começar a agir nessa mudança.

 E isso é muito difícil porque, o que a gente falou também Gabriel, dessa resistência a esse novo, esse medo. E o medo paralisa, só que agora é hora de atravessar esse fantasma, e abraçar esse novo mundo. 

A gente precisa de pessoas, dos advogados, cada vez mais engajados na questão da melhoria das condições de vida da população de um modo geral, principalmente aqui no país, onde a gente está vivendo uma realidade de crises políticas e econômicas há muito tempo. 

Então, essas crises têm causado efeitos de divisão da sociedade, e a gente precisa trabalhar esse novo, a gente precisa estar engajado, a gente precisa ajudar o Judiciário de alguma forma, a gente precisa dialogar com o CNJ, com os ministros, com os desembargadores, com quem controla a justiça. 

Se, por exemplo, os tribunais poderem organizar os seus dados, para as pessoas poderem tentar, de alguma maneira, contribuir com o conhecimento que elas têm, para a gente ter uma justiça menos litigante e mais produtiva, mais atenta, com mais empatia pelo ser humano. 

Então é isso, eu tenho uma visão muito otimista, isso às vezes atrapalha um pouco, mas muito otimista com relação as novas gerações. Eu estava fazendo uma palestra, sexta-feira passada na Federal, e antes de falar eu pedir para ouvir as pessoas, e foi legal você ver que já tem essa preocupação. 

Essa preocupação é maior do que na minha geração, no sentido de melhorar, saber onde eu posso contribuir. É lógico que está todo mundo querendo ganhar grana, todo mundo querendo ter sucesso, o ser humano não mudou nesse sentido, mas o que mudou é esse componente de que cada vez mais gente está vindo para construir essa nova sociedade. 

É nisso que eu acredito, nisso que eu me apoio, que acordo todo dia e falo “vamos!” Tem uma coisa daquela revista Trip que eu gosto muito, que fala que só vai ficar bom quando ficar bom para todo mundo. E eu acho que a gente tem que ir nesse caminho, vamos fazer ficar bom para todo mundo.

Gabriel: Legal! A gente começou lá no início, você contando um pouquinho de como que foi para você implementar as mudanças, e você deu a dica de primeiro mostrar o dinheiro, mostrar o resultado em dinheiro para a empresa, que aos poucos você vai ganhando mais responsabilidade, mais confiança para tocar novos projetos com a inovação. 

E a gente acaba o podcast falando muito de propósito, falando de arte e de cultura, e de como essas coisas se misturam. Não significa que para que você tenha bons resultados em dinheiro você precisa esquecer o seu propósito. 

Talvez pelo contrário, se você tem um propósito bem definido, tem claro tudo isso, fica mais fácil você sentir empatia pelo outro e naturalmente conseguir buscar as melhores soluções para aumentar a eficiência do seu escritório ou do seu departamento jurídico. 

Para a gente encerrar Christiano, você é um professor né, então ao longo do episódio de hoje, na sua história que já é muito rica, você trouxe muitos conceitos muito avançados em alguns pontos, e muitos conceitos talvez distantes para um escritório que está começando agora, tipo o Legal Analytics. 

Considerações Finais

Gabriel: Eu tenho duas perguntas: para o escritório que ainda não tem uma estrutura grande de uma Localiza, de um escritório de grande porte, as vezes um escritório pequeno, o que você  acha que o escritório poderia estar fazendo amanhã? 

Tem alguma tecnologia que você indicaria? 

E o segundo ponto: se você voltasse lá atrás, quando você advogado no Azevedo Sette, o que você faria diferente, o que você diria para um advogado que está numa carreira tradicional?

Christiano: Difícil. Para o escritório está começando, o escritório é composto obviamente de pessoas. Para essas pessoas eu costumo dizer o que eu dizia para o meu time: antes de qualquer coisa, expanda o seu olhar, expanda sua consciência, procure coisas que agreguem, como por exemplo, a gente falou aqui da questão da arte. 

Então consumam literatura, consumam bons filmes, dos bons diretores de cinema, boa música, teatro, muitas vezes até para as pessoas que não podem pagar, tem muita coisa gratuita. 

A gente sendo curioso ou de baixo custo, aqui nas praças de Belo Horizonte a gente vê muitas coisas gratuitas bem legais. Então assim abraça isso, sabe? Abraça esse novo, cursos online gratuitos, podcasts como esse da Freelaw, conteúdo da Freelaw, da B2L, tem muita gente produzindo. 

O próprio LSD também, a gente tem conteúdo, produzimos artigos. Então tem muita coisa para se consumir, a primeira coisa é aprender. Aquela coisa que o Alvin Toffoli fala: aprender, desaprender e aprender de novo. 

Então esse é o primeiro ponto, vamos adquirir conhecimento, partindo disso de expansão do olhar, e depois também uma mistura com as questões do entendimento do que é a inovação no direito, de quais os impactos que as novas tecnologias podem trazer para a carreira e para o escritório. 

Foquem na melhoria da gestão também. A gente vê um gap muito grande, nas organizações de todos os tamanhos, na gestão. A gestão é muito importante, muito mais do que a técnica em si, a técnica obviamente é essencial, mas você ter um entendimento de conceitos, de receita, despesa, custo, investimento, ainda que pequeno, investimento próprio nas mídias sociais, a social selling. 

Se posicione de alguma maneira, produza artigos, que as pessoas vão querer ler, imagine a pessoa, passe por alguém antes de publicar. É esse o tipo de linguagem? Há linguagens mais acessíveis hoje, as pessoas estão acostumadas a ler, por causa da questão da mudança de paradigma, em períodos curtos, uma linguagem mais rápida. 

Então comecem a produzir esse tipo de conteúdo para o escritório. Cuidem das pessoas, o que a gente chama de employee experience, a experiência do empregado: como você está trazendo essas pessoas para junto com você, o que você está passando para elas é verdadeiro ou não é verdadeiro? Elas vão virar sócias, de fato, ou não vão virar sócias? 

Isso é só um discurso, ou você deve falar “você não vai virar  sócio mas eu vou te dar toda oportunidade você ser um belo advogado e você cumprir o seu propósito”. 

Então tem várias coisas que o escritório possa fazer.

De repente, o escritório de pequeno médio porte adquirir uma nova tecnologia para tentar testar, perder o medo. Acho que são essas as questões principais. 

E a outra pergunta sobre o que eu faria se eu voltasse lá no Azevedo Sette, o que eu faria lá atrás na minha vida. 

Aliás, lá em Itabira eu já vendia picolé aos 7 anos de idade, o Picolé Pinguim. Depois a gente vendia jornal para o açougue para comprar figurinhas da Copa do Mundo, do Campeonato Brasileiro e etc. 

Minha mãe teve loja também e sempre empreendeu. Eu arrependo muito de não tem empreendido logo quando comecei a minha carreira, logo quando começou a sobrar algum dinheiro lá atrás. 

Depois eu passei a aconselhar isso às pessoas, na Localiza: “cara, empreenda! Sempre tenha um plano B”. 

Porque o empreendimento, o empreendedorismo, ele traz coisas que ajudam muito a melhorar a própria carreira, mesmo que você seja um empregado a vida inteira, o que eu não acredito que na sociedade vai mudar e que essas pessoas vão ser convidadas a trabalhar com projetos. 

E o tipo de emprego como a gente vê não vai existir mais. Então comecem a gastar um pouco de tempo, nem que seja vendendo brigadeiro, tentando fazer um carrinho, um food truck, empreenda de alguma forma. 

Faça alguma coisa que você goste, que te dê estímulo de acordar no dia seguinte, porque estou trabalhando, estou produzindo, mas estou entendendo esses conceitos sobre as quais a gente mencionou, de receita, despesa, custos, enfim, um pouco de entendimento de contabilidade. Isso ajuda muito, parti para o empreendedorismo. 

E tudo isso que eu falei antes também, para os escritórios. Adquiram cultura, adquiram antes, vivam esse novo e abracem esse novo mundo e essas coisas que estão chegando sem medo.

Gabriel: Legal. Vocês não estão tendo a oportunidade de ver o Christiano, mas o legal de ver ele falando é que o olho dele brilha. 

E eu acho que esse é um episódio que faz o olho de todo mundo voltar a brilhar, a gente se reconectar com o propósito, com essas questões importantes. 

Muito obrigado, Christiano, pela sua presença, tenho certeza que o episódio tocou diversos colegas, advogados e advogadas, com conceitos avançados, mas ao mesmo tempo voltando para essas questões que são muito importantes e muitas vezes esquecidas. 

Eu queria muito agradecer você, colega, advogado, colega advogada, que está aí novamente presente conosco em mais um podcast da Freelaw.